quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Amigos

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade.

E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências...

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar.

Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida. Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo!

Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer... Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus amigos! A gente não faz amigos, reconhece-os.

Vinícius de Moraes

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Ter e Viver

Só se começa a viver quando se perde o medo de morrer. Só tem alguma coisa quem não medo de perdê-la. Do contrário, é a coisa que o tem. Você é um mero refem. Quem é refem não vive, implora, se arrasta.

Ter e viver me parecem caminhos melhores. Por mais assustadores que possam ser. E são. Tudo tem seu preço. Ter e viver parece ser bem mais caro, mas não acho que seja. Implorar e se arrastar sai muito mais caro.

É como comprar uma casa à vista ou pagar aluguel pelo resto da vida. Comprando, você paga muito dinheiro de uma vez, mas a casa passa a ser sua. Pagando aluguel, você paga um pouco a cada mês, todos os meses do resto da sua vida, e a casa jamais será sua.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

A Mente

Modelos são representações que procuram se adequar à verdade. A verdade, é uma só. Os modelos, são muitos. Eis aqui mais um, para a mente.

A mente é um computador cuja finalidade é processar coisas que causam inquietação com o objetivo de eliminá-las. Ela possui memória e processador.

A memória armazena os pensamentos que causam inquietação, sofrimento, na ordem do mais importante para o menos importante no momento.

O processador, que é o raciocínio, pega o pensamento mais importante no momento e o fica analisando com o objetivo de eliminá-lo, ou seja, produzir paz. Ao invés disso, entretanto, em geral são gerados mais pensamentos de sofrimento e inquietação, que são armazenados de volta na memória.

Após um pensamento ter sido processado pelo raciocínio, este imediatamente pega o próximo da fila na memória e o ciclo recomeça indefinidamente.

Como a finalidade da mente é processar pensamentos que causam inquietação e sofrimento de modo a eliminá-los, todos os pensamentos presentes na mente são fonte de sofrimento. Assim, quanto menos cheia estiver a mente, menos sofrimento haverá.

Moral da história: paz é sinônimo de mente vazia, mente vazia é sinônimo de paz.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

É isso aí...

Ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir
Tenho muito pra contar
Dizer que aprendi

Que na vida a gente tem que entender
Que um nasce pra sofrer
Enquanto o outro ri

Mas quem sofre sempre tem que procurar
Pelo menos vir achar
Razão para viver

Ver na vida algum motivo pra sonhar
Ter um sonho todo azul
Azul da cor do mar



Mas quem sofre sempre tem que procurar
Pelo menos vir achar
Razão para viver

Ver na vida algum motivo pra sonhar
Ter um sonho todo azul
Azul da cor do mar

sábado, 13 de outubro de 2007

Eu, zumbi?

Qual o sentido de uma vida sem sentido? Qual o sentido de uma vida em que não há nada além de permanecer vivo? Qual o sentido de acordar todos os dias sem qualquer perspectiva de dar um único sorriso? Qual o sentido de ir dormir todos os dias sem a perspectiva de dar um sorriso no dia seguinte? Acordar e dormir. Dormir e acordar. Qual o sentido? Por que viver um vida assim? Por que se permitir viver uma vida assim?

Por nada, além de por medo. Medo: a única força que move um ser humano a se permitir sofrer. Mas medo de quê? Eu pergunto: medo de quê? Tem sentido me permitir viver um vida sem sentido por medo? Uma vida medíocre. Que medo é esse? E quanto ao medo de viver uma vida assim? Muito mais do que medíocre: horrível. Será que eu não tenho medo disso? Tenho, muito.

Um ser humano não se satisfaz apenas com pão. Não existe um único ser humano que consiga viver só com pão. Ninguém vive sem circo. O sorriso é necessário à vida. O sorriso é a própria vida. O choro pode ser aprendizado. Mas o sorriso é vida. O pão é a vida do corpo. O sorriso, é a vida do espírito.

Ausência de sorriso é ausência de vida. Quem duvida disso talvez não tenha tido a oportunidade de conhecer a depressão. Ainda bem. Vírus e bactérias consomem o corpo. A depressão consome a alma. Suga toda a vontade de sorrir. Tira toda a vontade de se mover. Tanto em atividades físicas quanto intelectuais. Reduz um ser humano a apenas um corpo físico. Um corpo sem vontade de viver. Um corpo sem alma. Um corpo sem vida. A imagem de um zumbi.

Não existe vida verdadeira sem sorriso. Se permitir uma vida sem sorriso é condenar o próprio espírito à morte. Será que existe algum medo que valha isso tudo?

sábado, 6 de outubro de 2007

O fim do fim de semana

Quando passo a semana mal, angustiado, espero a sexta-feira chegar e o fim de semana mostra que as coisas não são tão ruins como pareceram durante a semana. Ruins, mas não tanto, senão o fim de semana não teria como mostrar isso. Quando passo a semana bem, não angustiado, espero que a sexta-feira não chegue, porque o fim de semana mostra que as coisas não são tão boas quanto pareceram durante a semana. Boas, mas não tanto, senão o fim de semana não teria como mostrar isso. De novo, nem tudo é tão ruim nem tão bom quanto eu penso. O fim de semana me mostra isso. Ora pra um lado, ora pra outro. Eis o seu fim.

Mulher de fases...

E quantas fases... Mas um dia, tudo se estabiliza... Enquanto isso, eu fico aqui, e deixa a vida me levar, às 6 da manhã :-( Complicada e perfeitinha... Menininha de fases... Menininha.



(25/05/2009) Relendo isso, acabo de me dar conta de que uma das maiores dádivas humanas é a capacidade de aprender e se libertar de si mesmo :-P

Sou muito grato por isso e reconheço o valor de ter convivido com pessoas que aparentemente me causaram sofrimento no passado. Sem elas, eu ainda não teria aprendido o que já aprendi e seria menos livre, continuaria aprisionado naquele sofrimento causado na verdade pela minha ignorância.

E, sem outras como aquelas, eu jamais irei aprender o que ainda não aprendi e continuarei aprisionado por toda a ignorância que ainda vive em mim. Por exemplo, a ignorância que às vezes ainda me faz sentir raiva daquelas pessoas ao me lembrar de certas coisas.